quinta-feira, 27 de abril de 2017

Meu mundinho



Em contraposição, (ou será concordância?) à crônica Um mundo que se abre, onde escrevi sobre a fotografia, onde minha mulher me desafiou refletir, me debruço a imagem a seguir.

           É uma prosaica fotografia de um canteirinho da minha hortinha em preparação. Aparece a terra revolvida, à direita a enxada, para dar ideia das dimensões por comparação, no mais algumas plantinhas, solo com sombras projetadas de ramos de árvores na volta.

        Se prestarem atenção, aparecem pequenas folhas verdes. São mudinhas de salsas e cebolinhas verdes que eu plantei e espero que vinguem. Ocorreu o seguinte, comprei os temperos verdes no mercado. São plantas cultivadas em hidroponia, ou seja, cultura em água. Como vieram com raízes aproveitei as porções verdes no almoço e plantei os talos que sobraram. Pelo que se vê, pegaram e estão crescendo vagarosamente.

          Na verdade, eu como tenho origem rural, estou fazendo uma pequena experiência, testando plantinhas frágeis, até então cultivadas em ambiente controlado, estufa, água, temperatura, luz, nutrientes químicos líquidos dosados. Coloquei-as de volta ao ambiente natural. Esses vegetais foram criados artificialmente, na cidade, e não na terra de verdade, na roça. 

          Ao contrário de mim, vieram da estufa, para o barro. Ambiente controlado, para local rude. Eu vim do bruto, da poeira, da roça, para cidade. Do rústico, para o sofisticado. Do simples para o complexo. Do ambiente com pouca informação, para o local com informações em excesso. Da ignorância, para a educação formal. Do natural, para o artificial. Do pedregulho para o asfalto.

         Eu sobrevivi, me adaptei parcialmente, transplantado da roça para a cidade. Levei tempo. Será que as salsinhas e cebolinhas, tão frágeis, hidropônicas, vão se adaptar ao ambiente duro da minha horta?  

          Será que é a metáfora da vida?  
         
Porto Alegre, 21 de março de 2017.
Jorge Luiz Bledow
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